Renda Fixa Empresarial – Aprenda a emprestar dinheiro para pequenas empresas via FIDC

Por Arthur Farache

Renda Fixa Empresarial – Como emprestar dinheiro para pequenas empresas via FIDC

Desconhecida da maioria dos investidores, a renda fixa empresarial com foco em pequenas empresas pode ser um investimento com bons retornos.

Você sabia que uma pequena empresa chega a pagar mais de 5% por mês em forma de juros e taxas aos bancos?

Depois de entender sobre Debêntures e Notas Comerciais emitidas por grandes empresas e ir mais a fundo para entender sobre Debêntures Incentivadas sem IR, vamos falar de algo ainda mais novo e com risco e potencial de ganho maior.

Hoje o pequeno investidor pode investir em fundos que são, de um lado, uma alternativa de capital às empresas mais barata que bancos e que, de outro lado, oferecem uma rentabilidade especialmente atrativa para os investidores que tem perfil/apetite para esse tipo de risco.

Renda Fixa - Pequenas Empresas - FIDCQue tal entender melhor esse mercado? Nesse texto você vai aprender como investir em fundos de investimento que emprestam dinheiro para pequenas empresas.

Antes de começarmos é importante deixar claro que  você não vai sair por aí emprestando seu dinheiro diretamente para a loja de instrumentos musicais da esquina. Essa atividade é privativa de instituições financeiras. Portanto, cuidado!

Uma das maneiras que você pode fazer é investir por meio do fundo de investimento em direitos creditórios – os chamados FIDCs.

Nos EUA a figura do fundo de crédito já é um pouco mais conhecida. No Brasil esse tipo de investimento vem ganhando adeptos aos poucos.

O FIDC surgiu como uma alternativa de investimento ao modelo clássico de intermediação financeira (praticada tradicionalmente pelos bancos comerciais), possibilitando a empresas o acesso aos recursos de investidores, uma vez que o custo das taxas e juros bancários ainda é muito alto.

Com a crise financeira brasileira dos últimos 2 anos, os bancos fecharam a torneira do crédito às pequenas empresas, logo o volume investido e número de FIDCs cresceram como uma alternativa mais barata e mais acessível às pequenas empresas.

Veja abaixo o gráfico que mostra esse desenvolvimento:

Evolução de FIDCs

Fonte: ANBIMA/CVM
Acumulados os FIDCs, FIDCs-NP e FIC-FIDCs.

O crescimento do número de FIDCs foi muito maior que o crescimento do volume de recursos, isso quer dizer que há muitos FIDCs pequenos sendo criados.

Alguns tem estratégias específicas, por exemplo, atender apenas fornecedores da Petrobras, apenas empresas do ramo industrial ou da cadeia produtiva do leite. É importante entender qual a estratégia do FIDC.

Um pouco de história

Após a estabilização da moeda com o Plano Real em 1994, o mercado começou a buscar formas de financiamento de longo prazo para empresas e projetos mais baratas que os bancos tradicionais, já que até então a inflação galopante impossibilitava qualquer tipo de financiamento de longo prazo.

Naquela época não existiam os FIDCs, portanto, os agentes de mercado (empresas, bancos de investimento, advogados, etc.) começaram a criar empresas (chamadas Sociedade de Propósito Específico) cuja única função seria separar determinadas garantias e tomar recursos emprestados no mercado. Era uma estrutura que envolvia altos custos e não era muito eficiente.

cvm

Em 2001, o Conselho Monetário Nacional (CMN) criou a figura do FIDC por meio da Resolução n. 2907 e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) regulamentou com a Instrução n. 356, que se espelhou bastante nos EUA.

Os primeiros FIDCs foram registrados em dezembro de 2002:

(i) BGNMax – os investidores compravam créditos consignados em folha de pagamento de clientes do Banco BGN S.A. Ou seja, indiretamente os investidores estavam emprestando dinheiro para pessoas físicas (servidores públicos ou aposentados) e recebendo diretamente do desconto em folha.

(ii) Ideal Educação – os investidores comprovam créditos oriundos do setor educacional. Ou seja, indiretamente os investidores estavam emprestando dinheiro para pessoas físicas que estavam cursando graduação e pós-graduação.

De lá para cá, como vimos acima, o mercado de FIDC cresceu muito. Hoje, se somarmos todos os FIDCs hoje já são mais de R$ 80 bilhões investidos nesse tipo de fundo.

É claro que a maior parte desses recursos é de investidor institucional. Mas se entendermos direitinho o funcionamento e seus riscos, por que nós mortais também não podemos fazer dinheiro nesse mercado?

Esse é o típico mercado que só grandes bancos e investidores institucionais ganham dinheiro, e em que o pequeno investidor é deixado de lado.

Atividades e Funcionamento

O racional das atividades do FIDC é simples, embora seu funcionamento – assim como todos os outros fundos de investimento – seja complexo porque envolve muitos atores.

Para que um FIDC possa operar, existem inúmeros atores que exercem as atividades distintas de modo a dar segurança e eficiência para a operação. Veja a seguir um infográfico que explica mais detalhadamente, (mas não se assuste!):

Fundo de Investimento em Direito Creditório

 

É isso mesmo: por trás de cada fundo de investimento em funcionamento no Brasil, existem diversas empresas, órgãos reguladores estatais (BACEN e CVM) e autorreguladores.

O importante mesmo é você entender como os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios – FIDCs operam. A grosso modo, as atividades de um FIDC podem ser explicadas pelo infográfico abaixo.

 

Funcionamento Fundo de Investimento em Direito Creditório

1- A empresa (cedente) vende um produto ou serviço a prazo para o consumidor ou outra empresa (sacado).
2- A empresa cede seus direitos creditórios (recebíveis) ao FIDC.
3- Com autorização da CVM, o FIDC emite cotas e recebe investimento do investidor.
4- O FIDC antecipa os recursos referentes àquelas vendas e, no vencimento, cobra a dívida diretamente do sacado.

Percebeu que de forma indireta essa antecipação de vendas funciona como crédito para pequena empresa? Essa injeção de recursos no caixa alivia o capital de giro.

Cota Sênior x Subordinada

Outra importante característica dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios – FIDCs é a possibilidade da existência de duas classes de cotas: sênior e a subordinada.

A cota de classe subordinada é aquela que se subordina à cota da classe sênior para efeito de amortização ou resgate. Significa dizer que o cotista que detém cotas da classe subordinada somente receberá qualquer pagamento depois que o cotista de classe sênior houver recebido.

Cota Sênior x Cota Subordinada FIDC

Dessa forma, a cota de classe subordinada absorve qualquer inadimplência e protege o recebimento e a rentabilidade da cota de classe sênior. Em caso de chuva o cotista subordinado toma chuva e o dinheiro dele serve como guarda-chuva para o seu dinheiro.

Em geral, um FIDC é constituído com:

  1. A porcentagem de cotas seniores e de cotas subordinadas. Por exemplo: 80% das cotas serão da classe sênior e 20% serão da classe subordinada. Esses 20% absorverão qualquer inadimplência e protegerão os cotistas seniores.
  2. Um objetivo de rentabilidade a ser alcançado pela cota de classe sênior. Por exemplo, 140% do valor do CDI. Com isso, a cota da classe sênior se transforma em um título de renda fixa.

Todos os ganhos do fundo deverão, em primeiro lugar, assegurar o pagamento e a rentabilidade fixada para o cotista de classe sênior. O que sobrar irá para o cotista de classe subordinada.

No caso acima (2), se o fundo como um todo tiver uma rentabilidade inferior a 140% do CDI, ou mesmo se houver uma perda no patrimônio do fundo, o cotista sênior não ficará prejudicado em seu pagamento, nem mesmo em relação à expectativa de rentabilidade, do valor de resgate ou amortização das cotas subordinadas.

Resumindo: o cotista subordinado assume todos os riscos da carteira de recebíveis, isto é, assume todos os riscos do fundo. Em compensação, no caso de haver uma rentabilidade superior àquela esperada pelo cotista sênior, ela será atribuída às cotas subordinadas.

Assim, dentro do mesmo fundo de investimento, há duas espécies de cotistas: aquele que assume maiores riscos, mas também pode obter uma rentabilidade maior (cotista subordinado), e aquele que assume riscos mínimos e irá obter uma rentabilidade quase certa (cotista sênior).

Riscos

Antes de investir em um FIDC, fique atento aos riscos envolvidos em sua operação:

Risco de Crédito aos Direitos Creditórios: existe o risco de inadimplemento ou atraso no pagamento de juros e/ou principal pelas empresas ou consumidores (sacado) das operações do FIDC, podendo ocasionar, conforme o caso, a redução de ganhos ou mesmo perdas financeiras até o valor das operações contratadas e não liquidadas.

Risco Operacional: Como o funcionamento do FIDC envolve vários agentes (key transaction parties), as suas capacidades operacionais que incluem recursos humanos, físicos e financeiros, devem ser consistentes com suas responsabilidades. Portanto, existe o risco de algum desses agentes não estar totalmente apto ou realizar algum erro na execução de seu trabalho.

Risco de Fraude: é importante entender que esse mercado já sofreu com FIDCs que foram alvo de fraude seja causados pelos agentes envolvidos no seu funcionamento, seja por comprar direitos creditórios oriundos de fraude.

Risco de Liquidez: existe o risco de redução ou inexistência de demanda pelos ativos integrantes do FIDC. Lembre-se que não há um mercado de direitos creditórios em que o fundo possa eventualmente liquidar a operação antes do vencimento. Hoje as atividades do FIDC se resumem a cobrar as empresas ou consumidores (sacado) no vencimento.

Por outro lado, há risco de liquidez com relação às quotas do FIDC, se você investir em um fundo fechado fique atento se há negociação em mercado secundário ou datas de amortização. Se for fundo aberto, fique atento aos prazos de resgate.

Risco de Mercado: consiste no risco de flutuações nos preços e na rentabilidade dos ativos do FIDC, os quais são afetados por diversos fatores de mercado, como alterações políticas, econômicas e fiscais. As operações contratadas pelo FIDC normalmente são prefixadas, se nesse meio tempo a inflação se movimentar pode haver impacto na avaliação das operações.

Simulação FIDC x SELIC x CDI x Poupança e Lista de TODOS os FIDCs

Está curioso para ver como isso pode impactar seus investimentos? Preparamos planilha que você pode baixar gratuitamente com um simulador e uma lista de todos os FIDCs em funcionamento.

A planilha te ajuda a simular FIDC x SELIC x CDI x Poupança desde junho/2012.

Quer essa planilha? É só preencher abaixo.

Como escolher?

Escolher um tipo de investimento é algo muito particular, mas vou citar aqui alguns critérios que levo em consideração e considero que qualquer investidor experiente concorde comigo.

Critérios Eliminatórios

  1. Idade do fundo – É importante que o fundo tenha uma idade mínima para ver a consistência, senão o histórico não significa muita coisa.
  2. Rentabilidade da Cota Sênior – Quanto ele paga para cota para cota sênior? Costumo olhar aqueles a partir de 130% do CDI ao ano.
  3. Possui uma proporção Cota Sênior x Subordinada maior que 15%? Se sim, ok.

Critérios Classificatórios

  1. Tamanho / Patrimônio Líquido – É importante você ver se o fundo não é muito pequeno. Procure um tamanho médio acima de R$ 20MM de PL.
  2. Histórico de rentabilidade da cota subordinada – É importante que o fundo esteja dando dinheiro para o cotista subordinado, se ele estiver dando prejuízo, não adianta nada.
  3. Quem é o consultor que origina as pequenas empresas? Qual a sua história? Está em dúvida? Liga para ele.

Como investir?

Há dois caminhos para se investir em FIDC:

  1. Você contacta sua corretora e pede para ver quais são os FIDCs que ela distribui. OU
  2. Você procura diretamente os consultores ou gestores de FIDC, cria seu cadastro nas instituições financeiras que são as administradoras dos FIDCs e investe -> o inconveniente disso é que você não tem sua posição consolidada em um único lugar e precisa lidar com vários sistemas diferentes.

Quer ajuda para investir?

Envia um email para gente: arthur@desfixa.com.br e/ou dirceu@desfixa.com.br.

 

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